
O problema central: um filme de “greatest hits”
Toda cinebiografia musical carrega o risco de se tornar um compilado de momentos celebratórios em vez de uma narrativa dramática consistente. Michael não apenas
cai nessa armadilha; ele parece tê-la escolhido deliberadamente.
O filme acompanha a trajetória de Michael Jackson desde os tempos do Jackson 5, nos anos 1960, até o lançamento de Bad, no final dos anos 1980. São mais de duas décadas comprimidas em 127 minutos, tratadas como itens obrigatórios de uma checklist cultural.
O resultado é o que alguns críticos chamariam de “cinema da Wikipédia”: a cronologia substitui o drama, e a memória coletiva toma o lugar da interpretação genuína. Cada evento surge como uma cápsula isolada, uma vinheta que existe não para aprofundar, mas para lembrarao espectador que aquilo aconteceu.
O acidente no set do comercial da Pepsi está lá. Os bastidores do Jackson 5 estão lá. A gestação do álbum Thriller está lá. Mas nenhum desses momentos é tratado com a
profundidade que merece.
“O filme não se aprofunda em sua vida pessoal — o que já seria esperado —, mas tampouco se aprofunda em sua carreira artística. E aí está o problema real.”
O que mais frustra não é o que o filme omite, mas o que ele escolhe fazer com o que inclui.
Você quer entender como Michael Jackson construiu o som de Thriller? Como ele e
Quincy Jones elaboraram cada camada daquelas produções que mudaram a indústria? Como a era
Bad transformou não só a música, mas a estética, o videoclipe e o conceito de show
ao vivo?
O filme toca em tudo isso de passagem, como se tivesse pressa de chegar ao próximo momento
icônico.

A santificação do mito
Antoine Fuqua faz uma escolha narrativa clara e, ao mesmo tempo, problemática: sanitizar a
história. Michael Jackson é retratado aqui como um gênio eternamente incompreendido,
simultaneamente ambicioso e inocente. Não há contradições. Não há zonas de desconforto.
Não há fissuras que possam ameaçar a imagem cuidadosamente aprovada pelo espólio do cantor.
O pai Joe Jackson, interpretado por Colman Domingo, é reduzido à caricatura do vilão
autoritário. A mãe Katherine, vivida por Nia Long, aparece quase sem nuances. Já o advogado
John Branca, interpretado por Miles Teller, beira o angelical. Cada personagem cumpre uma
função narrativa simples e segue em frente. Ninguém respira.
Esse retrato deliberadamente higienizado tem uma consequência direta: ao tentar proteger a
imagem de Michael Jackson a todo custo, o filme acaba, paradoxalmente, tornando-o menos
humano. O artista que vemos na tela é um símbolo, não uma pessoa.
E símbolos não sofrem de verdade, não tomam decisões complexas, não carregam contradições.
Por isso mesmo, não nos tocam profundamente.
A era Bad: uma oportunidade perdida
Se há um ponto em que a superficialidade do roteiro dói mais, é na abordagem da era
Bad. O álbum lançado em 1987 e a turnê que se seguiu representam talvez o pico da
genialidade de Michael Jackson como artista completo: compositor, performer, produtor e
visionário estético.
A Bad World Tour redefiniu o que um show de música poderia ser. O videoclipe de
“Thriller”, dirigido por John Landis, elevou o formato a algo próximo do cinema. Tudo isso
merecia um olhar demorado, analítico e apaixonado.
O que o filme oferece, em vez disso, são recriações visuais espetaculosas, mas emocionalmente
vazias. Você vê as danças. Você ouve as músicas. Mas não entende, de fato, o que estava
passando pela cabeça de um homem que, aos 29 anos, era simultaneamente o artista mais famoso
do planeta e alguém profundamente solitário, incapaz de viver uma vida normal desde os sete
anos de idade.
Jaafar Jackson: o ponto alto inegável
Seria desonesto ignorar o que há de genuinamente extraordinário neste filme: a atuação de
Jaafar Jackson no papel de seu próprio tio. Não é apenas uma questão de semelhança física,
embora ela seja notável.
Jaafar entregou meses de preparação intensiva, e isso aparece em cada detalhe: o glide, o
moonwalk, os trejeitos de voz, a postura de palco e os pequenos gestos de timidez fora das
câmeras.
Mais do que imitar, Jaafar consegue, nos melhores momentos do filme, transmitir algo da
vulnerabilidade por trás do ícone. Há uma cena em particular, nos bastidores de um show, em
que o olhar do ator carrega um peso que o roteiro nunca se digna a explicar. É nesses
lampejos que você percebe o filme que Michael poderia ter sido — e não foi.
“Jaafar Jackson convence, traz performance, trejeitos e forte similaridade. Ele se esforçou
e entrega aquilo que esperamos em filmes assim.”
O elenco de apoio também merece reconhecimento. Colman Domingo, mesmo constrangido por um
roteiro que o reduz a vilão caricato, entrega presença magnética. Miles Teller faz o que pode
com pouco. E o jovem Juliano Krue Valdi, nas cenas da infância, captura com sensibilidade a
pressão silenciosa que moldou o futuro artista desde cedo.
Produção técnica: onde o filme brilha de verdade
É nos bastidores técnicos que Michael encontra sua vitalidade mais genuína. A direção
de arte é impecável na reconstrução de décadas: os figurinos da era Motown, os cenários dos
anos 1970 e a estética futurista da era Bad.
A maquiagem nas transições de idade é realizada com atenção minuciosa, preservando a
identidade visual de Michael de forma natural e coerente.
Os números musicais, quando deixados fluir sem interrupção, têm uma energia inegável. A
recriação da Bad World Tour é visualmente impressionante — e é nessas sequências que
o público na sessão literalmente aplaudiu.
A música de Michael Jackson continua sendo um fenômeno irresistível, e o filme tem a
inteligência de deixá-la respirar.
O problema é que espetáculo não é o mesmo que cinema. Fuqua, competente em thrillers de ação,
mostra aqui certo desconforto com a intimidade dramática que uma cinebiografia exige.
Ele é mais confortável no palco do que no quarto — e a história de Michael Jackson era,
acima de tudo, uma história que acontecia nos quartos, nos estúdios e nas conversas
particulares que nunca chegaram ao público.
Um comparativo inevitável: Bohemian Rhapsody
As comparações com Bohemian Rhapsody são inevitáveis. A lógica é parecida:
“greatest hits” embrulhado em drama emocional superficial, com momentos icônicos recriados
para provocar nostalgia e aplausos.
A diferença é que Freddie Mercury tinha, ao menos, uma jornada emocional identificável.
Michael Jackson, aqui, não tem uma jornada: ele apenas acontece, evento após evento, canção
após canção.
Tentar contar a vida de Michael Jackson em 127 minutos, deixando de fora tantas camadas
pessoais, artísticas e históricas, não é apenas uma escolha narrativa. É, em alguma medida,
uma simplificação excessiva de uma história complexa.
Para quem vale a pena?
Se você é fã de Michael Jackson, provavelmente vai gostar. O filme entrega nostalgia,
espetáculo, músicas inesquecíveis e uma atuação central que merece reconhecimento. A sessão
terminou com aplausos — e isso diz muito sobre o poder que o legado desse artista ainda tem
sobre as pessoas.
Se você espera uma análise genuína de um dos fenômenos mais complexos da cultura pop do
século XX — as origens de sua genialidade criativa, o peso psicológico de uma infância
roubada, o isolamento progressivo e as contradições de sua imagem pública — esse filme não
tem muito a oferecer.
No final, Michael é um bom filme que poderia ter sido um grande filme. É um tributo
competente a um artista que merecia uma obra à sua altura. Como compilado visual de memórias
e músicas inesquecíveis, cumpre bem o seu papel. Como tentativa de compreender Michael
Jackson — o homem, o artista, a contradição viva — ele escolhe, a cada cena, não dizer quase
nada.
Veredito final
Michael (2026) é um espetáculo visualmente impecável e emocionalmente seguro. Jaafar Jackson entrega uma performance que, por si só, justifica o
ingresso. Mas o filme opta pela celebração controlada em vez do drama, transformando um dos personagens mais fascinantes da história da música em uma estátua de cera reluzente.
Vá ao cinema. Aplauda as músicas. Admire a produção. Só não espere que o filme diga algo que você ainda não saiba.
★★★☆☆ — 6/10
eu curti algumas partes mas realmente o desenvolvimento dos personagens ficou bem raso
achei que só eu tinha achado meio arrastado, bom ver que não fui o único
o final me decepcionou muito, parecia que acabou do nada
mano essa crítica bateu certinho com o que eu senti vendo, começo até empolga mas depois dá uma caída forte
pior que eu tava hypado e quebrei a cara, exatamente como você falou
bom ver alguém falando a real sem exagerar, análise bem pé no chão
a análise do vídeo complementa bem o artigo, ficou completo demais
pra mim o maior problema foi o ritmo, em alguns momentos dava vontade de pular
esse michael de 2026 tinha tudo pra ser absurdo mas ficou meio apagado em vários momentos
gostei da crítica porque não passou pano, falou exatamente os pontos fracos
esse tipo de crítica ajuda demais a decidir se vale a pena assistir ou não
a trilha sonora foi uma das poucas coisas que salvou pra mim
o visual até que ficou bonito, mas só isso não segura o filme inteiro né
a expectativa tava lá em cima e isso acabou pesando contra o filme
eu fui ver sem expectativa nenhuma e saí com a mesma sensação que vc descreveu no artigo
concordo demais com a parte do roteiro confuso, parecia que não sabiam pra onde ir
depois de ler isso nem sei se vou assistir agora kkk
eu curti mais que você kkk mas entendo todos os pontos levantados
teve potencial gigante mas faltou execução, isso resume bem
gostei que você destacou os pontos positivos também, não foi só crítica negativa
achei que iam reinventar mas no fim ficou meio mais do mesmo, salvou só algumas cenas específicas