A verdade sobre o fim do home office do Nubank
Não é sobre cultura. Nem sobre colaboração. É sobre o balanço trimestral.

O anúncio e o que está mudando
Em novembro de 2025, o Nubank anunciou o fim do modelo “remote-first” e a adoção de um regime híbrido mais presencial a partir de 2026. A política prevê dois dias de trabalho no escritório por semana, e a partir de 2027, três dias presenciais obrigatórios.
Até então, o banco digital permitia que as equipes se reunissem presencialmente apenas uma semana por trimestre. A mudança, segundo o CEO David Vélez, busca fortalecer a cultura da empresa e reduzir o que ele chamou de “custos invisíveis” do trabalho remoto.
O contexto financeiro e de resultado
O anúncio veio logo após a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2025, quando o Nubank apresentou um lucro líquido recorde e crescimento expressivo em receitas. Apesar dos bons números, analistas do mercado destacam que a empresa vive um momento de busca por maior eficiência operacional e controle de custos.
Em momentos de alta competitividade, ajustes na estrutura de trabalho muitas vezes refletem mais o foco financeiro do que uma real preocupação com a cultura organizacional.
A “mudança cultural” como mecanismo contábil
A narrativa oficial do Nubank fala em engajamento, colaboração e fortalecimento de vínculos. Mas a sincronia entre o discurso e o período de pressão por resultados levanta outra hipótese: a de que a mudança tem motivações econômicas.
Quando uma empresa altera seu modelo de trabalho em meio a um ciclo de cobrança por lucro e crescimento sustentável, é provável que o verdadeiro objetivo seja financeiro. A obrigatoriedade de comparecimento ao escritório reduz benefícios associados ao trabalho remoto, cria atritos e, de forma indireta, leva alguns profissionais a deixarem a empresa por conta própria.
O “Silence Layoff” e o impacto sobre o time
O termo “Silence Layoff” descreve uma estratégia em que empresas criam condições de desconforto suficientes para que parte da equipe peça demissão “por vontade própria”. Assim, é possível reduzir custos sem a necessidade de grandes pacotes de desligamento ou manchetes negativas.
No caso do Nubank, a exigência de mais dias presenciais e o fim do home office total podem gerar justamente esse tipo de movimento silencioso. A mudança afeta especialmente funcionários contratados em cidades sem sede física, que terão de se deslocar ou se realocar.
Um roteiro importado das Big Techs americanas
O que o Nubank faz agora é semelhante ao que grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos — como Meta, Google e Amazon — vêm aplicando desde 2023. Todas elas endureceram suas políticas de retorno ao escritório, sob o mesmo argumento de cultura e colaboração.
Por trás dos discursos inspiradores, o padrão se repete: redução de custos, melhora no controle e fortalecimento dos indicadores financeiros. A diferença é que, no Brasil, a narrativa é mais refinada. Aqui, aprendemos a transformar corte de custo em discurso de cultura.
O efeito no colaborador e no mercado
Para os funcionários, a decisão do Nubank significa menos flexibilidade e mais controle. Para quem mora longe dos centros onde o banco possui escritórios, isso representa um desafio real — financeiro e logístico. A longo prazo, a tendência é de que o banco mantenha apenas os profissionais mais alinhados com a nova política.
Para o mercado, a mensagem é clara: o Nubank quer mostrar solidez, eficiência e maturidade corporativa. A mudança de política é um sinal ao investidor de que a empresa está disposta a tomar decisões difíceis para proteger seus resultados.
Conclusão: não é sobre onde se trabalha, mas sobre quem fica
O fim do home office no Nubank não é, de fato, sobre cultura ou colaboração. É sobre o balanço. É sobre manter os números em alta, reduzir custos e ajustar a estrutura para agradar o mercado.
Quando a empresa muda as regras do jogo, não é o escritório que está em pauta — são as pessoas que permanecerão nele. No fim, o que está em jogo é quem o Nubank quer manter à mesa quando o jogo fica caro.